por Marcelo Campos
Os primeiros raios de sol e a movimentação de pessoas contrastam com o silêncio de um novo dia que inicia. Essa é a rotina que se repete todos os sábados para os moradores do Cabula VI, a procura de menor preço e qualidade entre frutas e verduras oferecidas em uma feira livre instalada em um estacionamento no final de linha do bairro. Mesmo com opções de mercados espalhados por todo o local, a busca do consumidor em economizar com gêneros alimentícios nas despesas do lar é muito evidente.Donas de casas mantêm o hábito de realizarem as suas compras de hortifrutis em feiras livres, acreditando que esses alimentos são mais puros e saudáveis vindos diretamente da colheita de pequenos latifundiários. Esse costume da população urbana vem justamente das cidades menores, onde geralmente acontecem uma vez por semana uma feira livre que é instalada em um quarteirão, rua ou praça. A versão da feira na capital repete o mesmo costume do interior, oferecendo as mais variadas hortaliças e produtos da fazenda.
A feira, que não tem o mesmo tamanho de uma do interior, sai da cidade de Terra Nova-BA, às 2h do sábado em um caminhão, dirigido pelo próprio feirante, Julival dos Santos Barbosa, 55, que trabalha em feira livre desde os 10 anos. Homem alto, forte, de aparência nordestina, é dono de uma simpatia contagiante que garante uma clientela assídua todo o sábado. Julival não tem empregados, conta com a ajuda da esposa, Evanice Barbosa, 54, do genro e de quatro filhos que o acompanham nessa jornada de trabalho que se estende até às 2h da tarde.
O feirante chega ao local pouco mais das 4h da manhã e arma no estacionamento cinco barracas, cobertas com uma grande lona de plástico. As bancas são arrumadas cuidadosamente por toda a família, frutas e verduras são separadas dando um ar de organização. A melancia por exemplo é cortada em fatias, ficando exposta ao cliente que é atraído pela aparência e aroma que é desprendido da fruta. As Laranjas são colocadas ao chão sobre uma grande lona e são vendidas por unidade, 10 por R$1,00. Já a banana é vendida à dúzia, que custa R$1,20. E segundo Julival é uma das frutas mais procurada pelos seus clientes.
Maria das Graças Cunha, 53, aposentada, moradora do bairro do Cabula VI há 20 anos, para na banca das frutas por não resistir ao aroma agradável da melancia. E relata, “Gosto de comprar na feira não somente por lembrar da minha cidade, mas por achar os preços mais baixos e também por poder pechinchar”, natural da cidade de Euclides da Cunha, no sertão da Bahia, ela diz que veio morar na capital aos 15 anos e uma das coisas que mais sentiu falta da sua cidade foi à feira nos dias de sábado, que costumava freqüentar com seus pais e os três irmãos menores. “Acordava cedo, usava o melhor vestido e acompanhava os meus pais nas compras de frutas e verduras na feira de Euclides”, conta.
Porém, explica ela que esse era um hábito comum das famílias daquela cidade, inclusive acontecia o encontro de pessoas que não se viam durante a semana. E o mesmo, a dona de casa preserva nos dias atuais, sendo que agora não usa o melhor vestido, comenta ela sorridente. Acorda cedo, prepara sua sacola e um carrinho para transportar suas compras. Chega à feira às 6h e já encontra um grande número de pessoas que se movimentam de lado para o outro, avaliando frutas e verduras para realizarem uma boa aquisição.
A movimentação na “feirinha” do Julival, conhecida por todos no bairro, tem maior fluxo entre as 6h e 12h da manhã. Após esse horário quase não são encontrados produtos da feira. O que sobra já não tem a mesma qualidade das primeiras que foram vendidas no inicio da manhã. Geralmente são frutas muito verdes ou maduras demais. Que às vezes também tem clientela garantida. É o que confirma Manoel Almeida, 38, comerciante, ele diz que compra mamão e banana bem maduros para alimentar um casal de jabuti que cria no quintal de sua casa. “Faço minha compra bem cedo, depois deixo pra comprar a comida dos meus jabutis no final da feira, pois adquiro algumas frutas por quase nada”, comenta.
Aproximando às 2h da tarde o comerciante e sua família começam a arrumar tudo em cima do caminhão. Desarmam as tendas e enrolam as grandes lonas, em seguida verificam o que pode ser aproveitado e fazem promoções atraentes para venderem o que sobrou aos clientes retardatários. O restante das sobras são feitos doações a pedintes que marcam presença todos os sábados para se beneficiarem com a benevolência do Julival.
Pronto, tudo arrumado no caminhão, o comerciante e toda a família se preparam para a viagem de volta a sua cidade. Limpam todo o local onde foi armada a barraca e colocam todo o lixo em sacos grandes. Finalmente após um dia de trabalho todos embarcam cansados no caminhão, porém satisfeitos com o lucro obtido pelo fruto de um dia trabalho que se repete toda a semana. Ali, no final de linha do Cabula VI.
(novembro de 2006)
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