por Ithana Grasciela
Com o desejo de dar voz à comunidade e aos diferentes grupos excluídos da sociedade, os jornais comunitários surgiram em meio à eclosão de veículos comunitários. No Brasil, eles tiveram maior incidência na década de 80 e 90. O jornal comunitário do Beiru é um deles. Criado em 2003, no bairro de Tancredo Neves, ele tem a intenção de desenvolver um trabalho de conscientização da negritude com a comunidade do bairro e, em especial, com os jovens.
Chegar ao jornal não é difícil: é atravessar o Cabula e ir para o final de linha de Tancredo Neves, onde os ônibus ficam estacionados. Ao lado de uma oficina de carros e em frente a uma praça pouca cuidada e a um colégio, vemos uma casa de dois andares onde no térreo há uma faixa escrita “Jornal do Beiru”. O espaço é pequeno, mas composto por muitas coisas: uma minibiblioteca, um quadro, carteiras, um computador, um vídeo e uma televisão. Mais parece uma sala de aula do que uma redação. As matérias são feitas e diagramadas num único computador. Depois de escritas, elas vão para as mãos da jornalista Márcia Guena, que as corrige.O jornal do Beiru partiu de uma iniciativa que tinha como objetivo resgatar a consciência negra em alguns bairros de Salvador como, por exemplo, o de Tancredo Neves. “O jornal partiu dentro de um projeto da associação Quilombo Cecília, em que um grupo foi formado para discutir a questão da afrodescendência e esse grupo resolveu fazer iniciativas diferenciadas nos bairros da cidade cada um no seu bairro ou próximo dele, para atuar na recuperação da memória do povo negro do bairro”, explicou Márcia Guena, uma das fundadoras do jornal.
O motor que faz funcionar o jornal é formado por um grupo de voluntários e alunos. Estes alunos passam por um período de aprendizado através de uma Oficina de Jornalismo que dura cerca de seis meses em que eles tomam aulas de fotografia, história da África, diagramação, texto jornalístico e gramática. Após este período eles começam a escrever as matérias já como repórteres do bairro. “As pautas partem de idéias do grupo e também da comunidade”, diz Márcia, que trabalha como editora e ensina texto jornalístico.
Mudança
A abertura do jornal possibilitou uma transformação na vida de alguns moradores, como no caso de Wilma Nere, de 20 anos, que conseguiu entrar numa faculdade de jornalismo graças ao seu trabalho no jornal. “Depois que eu entrei no jornal do Beiru, pude conhecer um pouco sobre a história do povo negro e da sua identidade, ele me ajudou a me reconhecer como parte deste povo que até então eu não me reconhecia. Com as aulas tive condições de fazer vestibular e acabei passando”, afirma a estudante que cursa o primeiro semestre de jornalismo nas Faculdades Jorge Amado. Hoje Wilma volta ao jornal como voluntária e ajuda a auxiliar os novos alunos.
A atual turma é composta em sua maioria por mulheres moradoras do bairro que se reconhecem como negras e que viram no jornal uma possibilidade de mudança na suas vidas, como no caso da aluna Soraya Santos, de 19 anos: “Antes eu vendia alumínio pra oficina aqui do lado. Daí um dia vi um anúncio com vagas para entrar no jornal e decidi entrar para ver como é que era. Estou aprendendo muitas coisas sobre a história do meu povo que eu não sabia”, diz ela com um sorriso tímido. Sua colega, Jucicleide Pinheiro Santos, de 21 anos, acrescenta: “Hoje me sinto acolhida, integrada”.
Outros jovens que não estão ligados diretamente ao jornal estudando ou trabalhando como repórteres também procuram se interar do que está ocorrendo no bairro e aprender sobre cultura negra e direitos do cidadão. “Sempre que posso leio o jornal e acabo aprendendo algo que não sabia sobre o negro e os meus direitos e também o que está ocorrendo no bairro”, comentou a estudante Neyla Silva, 17 anos. Não apenas a juventude está ligada ao jornal. Moradores da comunidade também o conhecem, como é o caso de José Reis, 51 anos: “Sempre que posso leio, muitas coisas importantes são escritas lá”.
Um dos principais objetivos do jornal é mostrar o que as pessoas do local produzem em termos de cultura e conhecimento. “O jornal não quer mostrar coisas negativas do bairro, ele quer mostrar o que o bairro oferece de opções e pensamentos ou de opções práticas culturais como Hip hop, o basquete, essas alternativas que acontecem dentro do bairro”, garante Márcia.
Nome
O nome designado para o jornal não foi em vão. Beiru foi escolhido por estar dentro do que Márcia chamou de “recuperação da identidade do bairro”. Originalmente o bairro de Tancredo Neves se chamava Beiru, em homenagem ao escravo Beiru, fundador do bairro. “Um dos motivos para troca de nome foi a intensa violência que fazia com que o local fosse mal visto na cidade”, afirmou a coordenadora do jornal Celeste Arruda.
Vanessa Ivy, 18 anos, estudante de jornalismo das Faculdades Jorge Amado, mora no Cabula, mas presta serviço como voluntária e afirma que o seu interesse no jornal foi por dois motivos: “Primeiro porque ele ensina os alunos sobre o fazer jornalístico e segundo por auxiliar os jovens do bairro a despertar um senso crítico sobre o papel do negro e o seu próprio papel na sociedade”.
Distribuição
O jornal encontra dificuldades para atingir toda a comunidade do bairro. “A tiragem é pequena, de 3000 exemplares, apenas um pequeno grupo é atingido, o dos jovens. A distribuição é feita de porta em porta”, comenta Gil Dantas, ex-aluno do jornal, que cursa atualmente psicologia na Ufba: “Íamos de casa em casa percorrendo o final de linha de Tancredo Neves, Arenoso. Como não tínhamos exemplares para todos, pedíamos que quem lesse passasse adiante para quem não havia lido”.
Apesar do esforço para alcançar o maior número possível de pessoas, o jornal ainda não é conhecido de todos. “Já ouvi falar, mas num conheço, nunca li”, diz Ana Célia Santos, de 30 anos, vendedora de quitutes e moradora do bairro acerca de 20 anos.
A princípio o veículo tinha como proposta se manter com seus próprios recursos. “A intenção é que ele fosse autogestor, mas a falta de recursos era muito grande. A partir daí decidimos colocar alguns anunciantes, o que ajudaria pelo menos a pagar a impressão do jornal”, assegura Márcia.
Promover uma abertura aos até então esquecidos é uma das bandeiras defendidas pelos veículos de comunicação comunitária. “Estas iniciativas comunitárias são importantes para organização dos diferentes grupos. Pensar no outro e permitir a sua inclusão é uma das nossas principais lutas”, completa Márcia.
(junho de 2005)
Arquivado em: CIDADE