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Liberdade enclausurada

por Marcelo Campos

O estereótipo de alguém que cumpre pena por algum delito, é o de um indivíduo periculoso. Alguém que de fato deve ser afastado do convívio familiar e principalmente da sociedade onde vive. Seja por roubo, homicídio, seqüestro ou por qualquer outro delito que inflija às leis do país. Como eles dizem: “Somos considerados todos ladrões”. No entanto, não é esta a impressão que se tem do presidiário José Lázaro de Oliveira, 40 anos, que cumpre pena no presídio Lemos Brito, Mata Escura. Lázaro foi indiciado por estupro e atentado ao pudor ao ser flagrado com uma menor de 15 anos, em um motel, no ano de 1995, porém foi julgado e condenado em abril de 2003. “Quando cheguei à cadeia, achei que tudo não passava de um grande sonho e que a qualquer momento iria acordar”, comenta. Pensamentos parecidos com esse não saíam da cabeça de Lázaro em um só momento. Custava a acreditar que tudo aquilo construído em sua vida seria perdido em um “piscar de olhos”. Porém a vida não lhe poupou da triste realidade de ter que passar oito anos da sua vida enclausurado. Distante da esposa e dois filhos, longe de parentes e amigos, enfim, separado do seu habitat natural.

Diante de tal fato, ele contesta a justiça dos homens, que incrimina e julga por um ato realizado sem agressão ou indução. É o que comenta Lázaro pela acusação de estrupo que lhe custou a liberdade. “Sei que estou cumprindo pena por ter infligido a lei, mas gostaria que o meu processo fosse revisto”, reivindica. Ele afirma que, a princípio, evitou se envolver com a menor. Tinha consciência do erro que estava prestes a cometer. Porém, não resistiu às investidas da jovem que o seduziu com sua beleza e jovialidade. Com esse comentário ele não se isenta da culpa, mas questiona quanto à contextualização dos fatos.

Dono de uma simpatia contagiante, ele não consegue esconder a tristeza no olhar. Estatura mediana, cútis clara e uma aparência de alguém seguro e sensato. Lázaro é facilmente distinguido dos outros internos por sua educação e sua maneira singular de ser, estilo de homem nobre. Cabelos grisalhos e calvo, ele parece ter mais idade, talvez pela postura séria. Mas, na realidade, tem espírito jovem e divertido que o ajudou a conviver com sua dura realidade. Apesar da sua situação, transmite um ar de liberdade, pensamentos lógicos e idéias centradas garantindo a ele uma personalidade forte e marcante.

A parte ruim, ele prefere não lembrar. Foram momentos ruins. Teve que conviver com pessoas de péssimo caráter e foi extorquido por muitas vezes quando chegou à carceragem. “Aqui tudo é muito caro, tive que comprar o local onde dormiria pra não ficar no chão”, desabafa. Lázaro conta que o convívio é muito difícil, o fato de ser educado e ter boa índole é motivo de discriminação. “O meu estilo nobre e meu jeito tranqüilo prejudicaram a minha permanência pacífica, dando motivos a mais extorção”, relata. Ele comenta que para ter “liberdade” dentro da cadeia tem que ter dinheiro, caso contrário, fica a mercê dos mais fortes.

O tráfico de drogas é eminente na carceragem. As vias de acesso são várias, mulheres de presos entram na cadeia com drogas introduzidas no órgão genital e ânus. Lázaro até levanta suspeitas do possível envolvimento com agentes do presídio. “Todos tem conhecimento desse processo, mas ninguém comenta nada”, desabafa. Um dos fatos mais constrangedores para Lázaro foi ter que fazer, durante um bom tempo, suas necessidades fisiológicas dentro da cela na presença de dois ou três homens. “Tive que usar o chamado ‘boi’, buraco no chão, pra fazer minhas necessidades”, diz.

Formado em instrumentação industrial, Lázaro era dono de uma micro empresa de carga aérea e suporte em informática. Logo após sua prisão passou os seus negócios para seu irmão mais velho, que algum tempo depois não conseguiu manter a empresa, sendo obrigado a fechá-la. Na penitenciária, ele permaneceu na carceragem durante um ano, usando a farda amarela, característica que o diferencia das fardas azuis que vivem na área livre podendo inclusive trabalhar. Inicialmente ele conseguiu uma vaga na administração do presídio, como serviços gerais, lavando os banheiros e limpando as salas. Em seguida foi solicitado por um fabricante de material esportivo. Lázaro trabalhava na confecção de bolas. E atualmente foi convidado a trabalhar no controle de estoque de uma indústria de pães, que funciona em anexo a diretoria, chamada Trigo Doce.

Ele desempenha seu papel com entusiasmo e responsabilidade, chamando a atenção de todos por sua capacidade e inteligência. Em pouco tempo, identificou problemas que prejudicavam a produção da empresa. Apresentou sugestões para um melhor aproveitamento da matéria-prima utilizada no preparo dos pães, diminuiu o desperdício com suas contagens diárias e com o monitoramento das funções exercidas na produção, garantindo a ele muitos elogios de superiores e colegas de trabalho. É o que confirma o sócio-gerente da empresa, Julio César Santos, 36, que diz ter melhorado consideravelmente o andamento produtivo da panificação. “Após a chegada desse novo funcionário, tudo ficou mais fácil no meu controle de estoque e na prevenção de perdas, estou muito satisfeito com trabalho exercido por Lázaro”, comenta.

O homem que um dia teve uma vida normal, digna de conforto e prazeres, hoje tem sua liberdade enclausurada longe de tudo e de todos. Porém, Lázaro não se corrompeu com o sistema ruim da prisão, não aderiu aos convites para participar de motins e rebeliões. O seu único propósito é poder estar livre “amanhã” e desfrutar novamente da liberdade, que um dia não deu valor. Porém, com as experiências adquiridas nesses anos de prisão aprendeu a valorizar a tudo que a vida lhe oferece. “Convivo na Trigo Doce no carcerário amargo, mas sairei da prisão melhor do que quando entrei, estou trabalhando pra que isso aconteça”, finaliza sorridente.
(novembro de 2006)