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Lutar, lutar e vencer

por Neise Silva Soares

Não há quem ande pelo bairro do Cabula VI e não conheça os projetos de Paulo José Machado Ramalho, mais conhecido como “Seu Paulo”. Um homem de 52 anos, alto, claro, que usa barba e de aparência física forte. Ele parece ter a vitalidade de um jovem de 20 anos. Afinal de contas, Seu Paulo toma conta de vários projetos, criados por ele, que visam o bem coletivo da comunidade desse bairro. Entre os projetos está a Biblioteca Comunitária do Cabula VI, o Futebol Comunitário, os cursos grátis de eletricidade e hidráulica, além de fornecer cestas básicas para pessoas carentes. Ele, que só estudou até o segundo grau, demonstra nas conversas que isso não é uma barreira a sua bagagem cultural. Um dos principais projetos que desenvolve no bairro é a Biblioteca Comunitária do Cabula VI, projeto que começou há seis anos porque ele gosta muito de lecionar. “No início era uma lojinha que buscava ajudar pessoas carentes. Agora, o espaço um pouco maior conta com quase três mil obras catalogadas por matéria e por série”, conta ele com alegria. Paulo afirma que sua biblioteca é procurada por pessoas de todas as partes, comprovando através do cadastro, com 1224 inscritos: “Tem pessoas de diversos locais que vem pegar livros aqui. Vem gente da Mata Escura e do Imbuí até andando”. Quanto ao tempo que as obras passam nas mãos dos leitores, ele declara: “No começo não questionava a questão do tempo, mas agora estamos dando 15 dias e se a pessoa quiser continuar vem aqui e renova”.

 

A escolinha de futebol, projeto criado pensando no seu filho mais velho, que gostava do esporte, já conta com mais de 100 crianças. São diversos campeonatos que dividem as crianças por faixa etária: até 12 anos, de 12 a 15 e de 15 a 18. São oito times no campeonato e tem até um regulamento seguido rigorosamente por todos. Os jogos são executados aos sábados pela manhã num campo neste bairro.

A família de Paulo ajuda muito no desenvolvimento dos projetos. Paulo, 25 anos, e Rodolfo, 18 anos estão sempre se organizando para cuidar principalmente da biblioteca comunitária, quando o pai não pode ficar. O filho mais novo é quem mais apóia os trabalhos desenvolvidos pelo pai e, segundo ele, “sempre fica ajudando-o no dia-a-dia na biblioteca”. A mulher, Iva Ramalho, o chama de “Dinho”, desde a época em que namoravam, e ele retribui o carinho tratando-a de “Dinha”, mas só quando estão em clima de “love”. A sua mulher até faz propaganda com cartazes em frente à biblioteca dos produtos que vende. Para sobreviver, esse guerreiro de face alegre, mantém as despesas de casa trabalhando como eletricista.

Cada projeto é tratado com muito carinho e muita responsabilidade por Paulo e os moradores reconhecem seu esforço. A estudante e moradora do Cabula VI Ila Gomes, 19 anos, declara que: “É importante o trabalho que Paulo faz, pois tem benefícios para a comunidade, tanto sociais quanto culturais”. Já o morador André Santos afirma que a biblioteca proporciona aprendizado para todos os moradores do bairro além de ser um estímulo ao conhecimento. “Venho sempre estudar aqui todos os dias, com alguns colegas. Além de oferecer bibliografia que auxilia meu aprendizado, faz com que desenvolva as atividades escolares com mais tranqüilidade por ser um lugar apropriado para isso”, declarou ele.

Os projetos de Paulo não beneficiam somente a comunidade do Cabula VI. Ele também colabora com o Hospital Aristides Maltez através das notas fiscais que arrecada com o empréstimo dos livros. Porém, apesar de todas as realizações que já teve com o projeto, seu maior sonho ainda não foi conquistado por falta de patrocínio. Esse sonho irá ajudar muitas pessoas. Ele pretende transformar a biblioteca em um centro cultural que contará com aulas de música, ginástica rítmica para idosos e curso de informática.

Esse senhor com vitalidade de adolescente é orgulho para os moradores que acreditam no potencial do seu trabalho e para sua família. Cada etapa que dá certo é uma vitória que o ajuda a dar mais um passo adiante. Esses projetos incentivam o ego dos que participam e de Paulo, que chega a se emocionar ao ver a alegria das pessoas com sua ajuda. O projeto é uma troca e nessa troca ele vai convivendo, lutando e lutando em prol de ajuda para outras pessoas.
(junho de 2005)