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Luz na escuridão

por Sara Regina

Uma comunidade onde só vivem cegos, trabalhando e morando todos juntos mantendo-se unidos através da deficiência visual. Poderia aqui está se relatando o livro “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, que conta a história de uma sociedade em que todas as pessoas foram tomadas por uma cegueira repentina. Mas não se trata de uma história ficcional e sim da Sociedade Aliança dos Cegos da Bahia, localizada no bairro de São Gonçalo do Retiro, que atualmente abriga cerca de 14 deficientes visuais. Os cegos trabalhavam e se mantinham através de uma fábrica de vassouras, que no momento encontra-se fechada por falta de recursos financeiros.


A criação da Sociedade da Aliança dos Cegos se deu devido à necessidade que os deficientes visuais tiveram de encontrar um local aonde pudessem morar e obter uma fonte de renda. De acordo com Moisés Chagas, 59 anos, morador da Aliança dos Cegos desde a sua fundação, em 1968, a Sociedade foi criada por três moradores que antes residiam no Instituto de Cegos, localizado no Barbalho. “Tinha um instituto dos cegos que passou por uma reforma, entrou uma nova diretoria que colocou os cegos para fora, eles foram indenizados. Quando receberam a indenização passaram a se comunicar, se uniram, lutaram e resolveram montar uma fábrica de vassouras que se localizava em San Martin”, disse Moisés.
A fábrica de vassouras anteriormente montada na Avenida San Martin era pequena e precária. Recorrendo ao programa de televisão de Jota Silvestre, famoso na época, transmitido pela tv Aratu, eles conseguiram através de solicitações por parte do apresentador que o prefeito vigente doasse o terreno, que localiza-se no bairro de São Gonçalo. A partir do dinheiro da venda de vassouras da fábrica e das indenizações que os cegos receberam ao sair do instituto de cegos onde moravam, eles conseguiram construir a Sociedade Aliança dos Cegos da Bahia e transferir a fábrica de vassouras para o lugar.

Moradia
A Sociedade Aliança dos Cegos é composta por um refeitório, onde os moradores realizam todas as refeições, dormitórios para homens e mulheres e algumas casas, onde residem os moradores mais antigos. A exemplo de Moisés Chagas, que mora numa casa separado dos demais, por que é um dos fundadores do local e é casado. No momento, apenas as pessoas solteiras podem passar a residir na Sociedade. “Para morar aqui tem que ter muita conversa, reunião para vê se a comunidade aceita”, relata Moisés.

Segundo os moradores da Aliança dos Cegos, a relação com o bairro de São Gonçalo é muito boa. “Adoro morar aqui em São Gonçalo, o pessoal é muito bom e amigo”, declara Luisa da Silva, 72 anos, moradora há 37 anos da Aliança dos Cegos. De acordo com Moisés Chagas, o bairro é tranqüilo e cresceu muito: “Tudo antigamente era mato e agora se transformou num bairro grande, mas continua com defeitos, pois antigamente não se ouvia falar em marginalidade como agora e o posto médico do bairro ainda é insuficiente”.

A Sociedade conta com a colaboração de Isabel Pinheiro Nascimento, que faz o papel de diretora, superintendente e secretária. A Aliança dos Cegos, atualmente não conta com a ajuda de voluntários, mas está aberta a receber doações de qualquer gênero e a contribuição de pessoas que queiram ajudá-los no local. “Não existem voluntários trabalhando, de graça ninguém faz nada pra gente não, mas se aparecer pessoas que queiram contribuir aceitamos”, afirma Moisés.

Fábrica
A fábrica encontra-se fechada há cerca de dois anos por falta de verbas. Atualmente a renda é adquirida através do beneficio que os deficientes visuais têm do INSS, do espaço que alugam como garagem e da realização de alguns eventos. “Essa ajuda é para pagar água, luz e a moça que faz a limpeza”, explica Luisa. O local não recebe verba do governo, que chegou a fazer uma pequena reforma no lugar e sobrevive também através de doações, que foram diminuindo com o tempo fazendo com que a fábrica de vassouras tivesse sua produção parada por falta de recursos na compra dos materiais.

Os deficientes visuais ainda têm esperança de que algum dia a fábrica de vassouras volte a funcionar, para que a estrutura da Aliança dos Cegos melhore e eles possam aumentar a renda. Segundo Moisés, quando havia a fábrica tudo era melhor e as vassouras eram produzidas com qualidade. Inicialmente a produção era manual e depois passaram a ser produzidas através de máquinas. “Eu queria que a fábrica voltasse a funcionar, naquela época era tudo muito bom, ganhávamos nosso dinheiro”, disse Luisa Silva

Moradores

Cantando e utilizando a mesa como percussão é que Carlos Santos de Jesus, 22 anos, morador da aliança a 1 ano e dois meses, passa as tardes na instituição. Sempre com um sorriso no rosto e disposto a conversar diz querer ser cantor, por isso entrou na aula de teclado para aprimorar seu lado musical. “Brevemente pretendo trabalhar com música, eu quero cantar, fazer carreira solo”, relata Carlos. Quando se pergunta a ele sobre qual estilo musical pretende seguir, alegremente responde: “Eu sou mais chegado a um arrocha”. Voltando a batucar na mesa do refeitório e a cantar trechos de musicas.

Na lavanderia, uma presença marcante é a de Nelson Silva, 54 anos. Por ser num lugar aberto, rodeado de plantas e ar fresco, foi o local escolhido por ele para cochilar, ler e meditar. Sempre acompanhado de um livro na mão, que pega emprestado na Biblioteca Central dos Barris, na parte de braile, Nelson diz adorar ler e escrever. “Já li muitos livros: “O Velho e o Mar”, “Morte e Vida Severina”, “Meu Pequeno Mundo”, O Guarani”, se eu falar todos os livros que já li, fico aqui até amanhã de manhã”.Tem vontade de escrever um livro contando a sua vida, com crônicas e poesias, chegou a ganhar em segundo lugar num concurso de poesia em braile.

Gosta também de línguas, fala algumas palavras em Alemão que aprendeu através de um dicionário em braile que ganhou, juntamente com um de inglês, mais que se perdeu com o tempo.Um de seus desejos é conseguir um computador. “ Sou muito carente de afeto, quem tem família sente saudades, queria um computador para preencher mais o meu tempo”, declara Nelson. A Sociedade juntamente com sua namorada fez com que diminuísse a solidão de Carlos Santos: “Quando eu morava sozinho não tinha pessoas para ter um dialogo no dia-a-dia”. A Sociedade ao longo desses anos de existência, passou a assumir um papel maior do que somente uma instituição, tornou-se uma luz na escuridão desses deficientes visuais.
Contatos:
Sociedade Aliança dos Cegos da Bahia
Estrada São Gonçalo do Retiro, 90, A – São Gonçalo.
Tel: (71) 3385-3467
(junho de 2005)