por Júlia Lins
Terapias alternativas e oficinas de aprendizagem vêm substituindo a cada dia o tratamento com choques e medicamentos em alguns hospitais psiquiátricos. É o caso do hospital estadual Juliano Moreira, que fica na avenida Edgar Santos no bairro de Narandiba, próximo ao Cabula. Há algum tempo o HJM (Hospital Juliano Moreira) vem criando e desenvolvendo junto a seus pacientes, trabalhos que consistem na integração do indivíduo na sociedade, tais como: Dança, teatro, capoeira, plantação de horta, oficinas de “fuxico” com retalhos, bijuteria, coral, terapia ocupacional e musicoterapia. Em geral essas oficinas contam, por sessão, com a participação que varia entre 7 a 15 pacientes, não sendo fixas as turmas.De vista para um mar de favela, o HJM se encontra como se fugisse da avenida principal, e no meio de uma rua, não tão escondida, uma entrada indica: Hospital Juliano Moreira. Aquele grande monumento mostra uma impactante demanda de pacientes que, junto as grades do pavilhão de cima, criam aquela atmosfera de um hospital psiquiátrico. No hospital dia, pavilhão inferior, a atmosfera não é mais aquela de “perigo”.
O paciente do hospital dia e instrumentista de sistema Eduardo Rodrigues, sofre de depressão e contou que participa de duas oficinas, da horta e da bijuteria: “São as que eu mais gosto, porque vão me servir lá fora. Eu poderei fazer minha horta em casa para uso doméstico e as bijuterias eu posso vender”, disse Eduardo, que também espera a inauguração da oficina de alimentos, para poder vender pão.
Os pacientes têm o livre arbítrio de escolher qual oficina quer participar, sem se comprometer com formação de turma, sendo três dias na semana de cada oficina, como Eduardo, que participa da horta ás segundas, quintas e sextas de 8:30h ás 12h.
Mesmo que o indivíduo tenha recebido alta, ele pode participar de uma oficina por semana.“O importante destas atividades não é o resultado do trabalho, mas o seu processo”, afirmou a musicoterapeuta Isabela Rêgo, que trabalha no HJM: “os trabalhos em grupo funcionam como atividades de socialização”. Após suas atividades, os integrantes do grupo discutem sobre qualquer tema que surgir, geralmente com relação à atividade realizada, ou algum problema pessoal insurgido ao decorrer do dia. Segundo Isabela este trabalho também é importante para que o indivíduo recomece a se situar e a procurar seu espaço dentro de um grupo social, sugerindo educação e disciplina.
Algumas oficinas também têm a função de orientação e exercício físico. O professor de capoeira Carlos Eduardo Duarte, trabalha há três anos no Juliano e diz que nesse caso é difícil trabalhar com o corpo, “já que temos idosos, pacientes altamente medicados, gente com problemas de saúde e locomoção”. Durante suas aulas ele divide o grupo em subgrupos para direcionar as atividades: “É uma turma que possui uma variedade de casos. Tem aqueles que são calmos demais, aí a gente procura movimentar, já outros são super agitados e para esses são feitos exercícios de relaxamento, dentre outros exemplos”, afirmou. Os pacientes não “praticam” a capoeira, mas trabalham em cima de seus princípios, como exercícios de relaxamento, continência, ginga e noções de espaço.
Estrutura
No prédio em que funciona o hospital dia no HJM, além das salas para as oficinas (que são constituídas não só de pacientes do hospital dia, mas também de internos) funciona o refeitório que serve café da manhã, almoço e lanche, um núcleo com 1 psicólogo, 1 enfermeira e 4 auxiliares, 2 bancadas com jogos de sinuca e pingue-pongue e o espaço para horta.
Os pacientes do hospital também contam com o suporte das assistentes sociais, que desenvolvem o Grupo Família, que é o encontro das assistentes com a família dos pacientes: “Esses encontros são muito importantes, pois possibilita um entendimento nosso, do que acontece na família em relação aos problemas apresentados pelos pacientes”, afirmou a assistente social Fernanda Mantelli. O Juliano Moreira dentro desta integração com o paciente, apresenta também alguns grupos que procuram desenvolver a socialização com os mesmos, por exemplo, os grupos Bom Dia e Boa Tarde que são onde os pacientes relatam como foi seu dia e a Assembléia que é onde eles fazem suas reclamações e sugestões do que poderia melhorar dentro da instituição.
Uma vez na semana todos os técnicos (terapeutas e professores) do hospital se reúnem no intuito de socializar entre eles, os resultados das atividades. “A gente discute o quadro evolutivo deste paciente sem comentar tudo, pois muitas coisas que eles nos contam é confidencial e mesmo não sendo, essa preservação é importante por causa da confiança que o paciente deposita em nós”, disse Isabela.
Rodrigues também contou que sua estadia no HJM foi uma “benção”, pois antes ele havia passado por outro hospital onde se sentia como um “presidiário”: “Depois de 10 tentativas de suicídio, hoje eu vejo um futuro para mim, principalmente com o aprendizado das oficinas”, afirmou o instrumentista de sistema, se referindo ás atividades do Juliano Moreira.
O lado b
A relação da população do bairro e das proximidades, com o hospital, divide-se em opiniões bem distintas. O estudante e modelo Celso Pires, morador do Cabula, disse que tem curiosidade em conhecer o HJM e vê a instituição como algo positivo que supre as necessidades de uma parcela carente da sociedade. “Tenho vontade de saber como eles se organizam lá dentro e de como se comportam os pacientes”, afirmou. Já Denise Paixão também estudante, que mora no Saboeiro, disse que os pacientes saem de lá pior do que entraram e não gosta da presença do hospital próximo a sua residência: “Já houve até caso de fuga de paciente. Acho que eles dão péssima assistência aos internos, eu tenho muito receio daquele ambiente”.
Mas uma coisa em comum existe entre essas opiniões: Certos mitos envolvem os hospitais psiquiátricos, assim como as doenças mentais, e isso desperta a imaginação e a vontade de conhecer algo tão desconhecido e cercado de mistérios, que dão aquele frio na barriga assim como os filmes de suspense.
(junho de 2005)
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