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O senhor do colete preto

por Milena Ribeiro

Às 6h da manhã ele já está de pé. Toma um café reforçado e vai trabalhar. Aderaldo das Neves chega pontualmente às 8h no Cabula, mais precisamente no bairro do Resgate. Quando coloca seu colete, passa a ser “o senhor do colete preto”, como todos o conhecem. Aos 46 anos, trabalha como segurança na Rua Silveira Martins, à serviço dos lojistas que, indignados com o grande índice de assaltos no bairro, o contrataram para fazer a segurança da região. Casado, morador do bairro Tancredo Neves há 15 anos, divide a casa com a mulher e dois enteados, e sai todos os dias disposto a ajudar. Há dois anos, Aderaldo tem exercido sua atividade no bairro. Chega sempre sorridente, cumprimentando todos os comerciantes da localidade. “Ah, o serviço é esse, são mais de dez assaltos por semana, vi o policial morto, aqui mesmo”, diz Aderaldo com voz mansa e simpática. Pessoa simples, de poucas palavras, 1,68 m de altura, com a timidez transparecendo no rosto e nos gestos contidos, quem o vê sem o colete, já velho com o nome da profissão da qual se orgulha, com certeza não diz que ele enfrenta assaltante, passa o dia fazendo ronda e defendendo quem passa por ali.

O segurança do Cabula é conhecido por todos que passam nas imediações da empresa de telefonia Vivo, e em toda a extensão da Silveira Martins, tanto pelos comerciantes do ponto do mingau, parada obrigatória de Aderaldo, quanto pelos moradores acostumados a vê-lo todos os dias de manhã. “Todo dia de manhã, quando venho pegar o ônibus, vejo o senhor do colete preto. Ele dá informação sobre ônibus e a quem está perdido por aqui”, comenta Aline, 23 anos, moradora do Resgate. Além de segurança, Aderaldo também serve como informante para quem precisa de ajuda.

O expediente vai das 8h às 18h, de segunda a sexta, e até às 12h aos sábados. “Tem dia que tem ocorrência, três ou quatro por dia, e dia que não”, relata Aderaldo. Como é segurança particular, ele não usa arma, mas afirma que não tem medo, aceita normalmente os perigos da profissão, assim como sua família. Aderaldo é uma pessoa esforçada, fala pouco de sua vida com a família, mas faz tudo isso por sua vontade de continuar trabalhando para ajudar na criação dos seus enteados.

A naturalidade com que encara sua atividade, se justifica pelo tempo que tem de trabalho nesta área: são 23 anos de experiência em várias empresas. Aderaldo contou uma de suas histórias: “Trabalhava numa empresa e, durante um tiroteio, fui baleado e passei dias no hospital São Rafael. Demorei um bom tempo para voltar a trabalhar, mas voltei. Na Semana Santa, aqui, um cara com uma faca estava assaltando as meninas e levando a bolsa e celular. Eu o peguei”.

As condições do seu trabalho não permitem agir diretamente contra os assaltantes armados, mas ele conta com o reforço dos policiais que ficam próximos rondando as ruas do bairro. Os assaltos de motoqueiros estão se tornando freqüentes, apesar dos índices gerais terem caído e essa é a principal preocupação de Aderaldo. “Tem acontecido mais assalto de moto, a gente já fica ligado”, explica com as mãos inquietas entre o bolso da calça e da camisa.

Quem o conhece sabe que o Senhor do colete preto, o segurança do Cabula, é um profissional muito dedicado no seu horário e local de trabalho. Nunca fica parado num lugar só, se movimenta por toda a rua, observando quem passa, se tem alguém suspeito. Como passa o dia todo no Cabula, já é conhecido do vendedor de mingau. “É, todos conhecem ele, está sempre por aqui, perto das lojas, dos bares, o povo se sente mais seguro”, constata o vendedor Antônio Silva.

Aderaldo sente orgulho e não pensa em se afastar do que faz, mesmo tendo que ficar sozinho, andando embaixo de sol. “Cada um tem o que escolheu, eu escolhi ser segurança”, fala Aderaldo com sorriso no rosto. Depois de uma rotina tão cansativa durante toda semana, Aderaldo das Neves gosta de ficar em casa com a mulher, tomando uma cerveja e descansando, mas até sábado ao meio dia, é certo para quem passa pelo ponto da Silveira Martins, que ele estará pontualmente lá, garantindo um pouco mais de segurança. Basta procurar pelo “Senhor do colete preto” e o encontrará fazendo o trabalho que exerce cheio de orgulho.

(junho de 2006)