por Sara Regina
Uma é freira, a outra mestranda, e a terceira professora aposentada, além de se assemelharem por serem mulheres, mantém em comum trabalhos realizados na comunidade de São Gonçalo do Retiro, que visam melhorar a vida de crianças. Cada uma delas a sua maneira criou mecanismos que atualmente trazem benefícios na vida das crianças do bairro, através da Creche Casa da Amizade, Creche Escola Rumo a Educação e do projeto Abayneh.
O bairro de São Gonçalo é constituído em sua maioria por pessoas que possuem baixa renda e é grande o número de crianças existente na comunidade. São Gonçalo, no momento não possui nenhuma creche mantida pelo governo, para que os pais tenham aonde deixar seus filhos enquanto trabalham. Foi devido ao conhecimento desses problemas que Teresinha da Silva, 60 anos, professora aposentada, criou a Creche Escola Rumo a Educação. A creche localiza-se numa casa alugada de dois andares. Na sala alguns colchões espalhados servem de cama para as crianças e no andar de cima as crianças maiores recebem reforço escolar.A Creche Escola surgiu em 1998, numa passagem ocorrida na vida de Teresinha e que se tornou o marco da criação do local: “Era um dia de chuva, estava em frente a minha casa quando passou uma mulher com três crianças na mão. Então perguntei se ela não queria deixar as crianças comigo enquanto fosse trabalhar. Ela não pensou duas vezes e deixou as crianças. No dia seguinte novamente, e contou a vizinha, que também deixou o seu filho, apareceram mais pessoas para ajudar e daí surgiu a creche”.
A creche Casa Amizade, que assim como a Rumo a Educação, foi idealizada a partir dos problemas ocorridos na comunidade, é coordenada pela Irmã Lies Desfierre, 58 anos, belga residente no Brasil há 32 anos. O nome da creche foi dado através da história da sua criação. Ela surgiu em 1996, através da colaboração de amigos da freira. O local onde atualmente funciona a creche servia de garagem, e já chegou a ser utilizado como igreja, atualmente reestruturado, serve de sede da creche. “Na congregação eles acharam que deveria transformar essa casa que funcionava como oficina em algo social”, declara a freira.
Já o Projeto Abayneh que possui o nome derivado de uma língua etíope, e significa aquele que está acima de tudo, foi criado devido a ausência de turmas que oferecessem educação infantil nas quatro escolas públicas da comunidade de São Gonçalo. A mestranda na área de educação Ana Cristina Conceição Santos, 32 anos, fundou o projeto em 2000, com a proposta de promover um espaço de socialização entre as crianças e os adultos. O Abayneh trabalha com crianças com idades entre 3 a 6 anos, por ser essa a principal demanda do bairro. Aborda também a questão étnica racial na proposta de transmitir conhecimentos sobre a cultura afro, e trabalhar a auto-estima das crianças.
Objetivos
Tanto as tarefas desenvolvidas por Irmã Lies como por Teresinha proporcionam um local onde as crianças possam ficar enquanto seus pais trabalham. A creche Casa da Amizade recebe crianças de 1 a 6 anos, elas chegam na creche às 7hs e os pais vão buscar às 17hs, assim também acontece na Creche Escola Rumo a Educação. Irmã Lies cobra uma taxa de R$ 30, para que os pais possam deixar seus filhos, e a comunidade do bairro do Cabula IV, também ajuda pagando a taxa dos pais que não têm condições.
Em ambas as creches as crianças realizam quatro refeições diárias. Na Creche Rumo a Educação, quando não há alimentos suficientes para todas as quatro, as crianças realizam uma refeição e os responsáveis pela creche vão as ruas a procura de doações. A prioridade na creche é para as crianças que possuem os pais trabalhando, mas dão um prazo para os pais mantendo as crianças na creche enquanto eles procuram emprego. “Nós sabemos que a mãe as vezes não consegue emprego por falta de auto-estima. As vezes elas não possuem nem um desodorante ou sabonete”, disse Teresinha.
Na Casa da Amizade o espaço é organizado para dá espaço reservado a todas as crianças. Cada uma delas possui um local para deixar seus materiais como roupas, mochila, entre outros. Após o almoço elas dormem em colchões que são distribuídos no chão de uma ampla sala. De acordo com Lies, a maioria dessas crianças são da parte mais pobre do bairro, e muitas delas freqüentam a creche por passarem fome, pois ali as refeições estão garantidas. O mesmo conta Teresinha: “Nós sabemos que a criança não jantou e de manhã, assim que ela chega nos preocupamos em preparar logo o mingau”.
O enfoque para a questão racial é dado tanto pela Creche Escola, através da valorização da textura dos cabelos e da cor da pele das crianças, como pelo projeto Abayneh. De acordo com Ana Cristina, no projeto utilizam a literatura em que os personagens negros aparecem de forma positiva, a exemplo de historinhas de livros como: “Tanto, Tanto”, “A Menina Bonita do Laço de Fita”, “O Menino Nito”, entre outras. “Utilizamos também mitos afro-brasileiros, na desconstrução satanizada que se tem da religião de matriz africana. Sem o intuito de doutrinar as crianças, contudo que elas conheçam os valores repassados por esses mitos”, declara Cristina.
O objetivo do projeto é o de resgatar a identidade étnica racial, promovendo a auto-estima positiva, além de garantir vaga no primeiro ano de escolarização na rede pública, envolvendo as famílias nas ações desenvolvidas pelo projeto e dar assistência psicológica e social quando houver necessidade. Segundo Teresinha o seu objetivo central é dá dignidade para as crianças que freqüentam a creche.
Dificuldades
A principal dificuldade da Creche Escola e do Abayneh é a falta de sede própria. A creche funciona numa casa alugada, fato que sobrecarrega os gastos para a manutenção, e o Projeto Abayneh ocorre somente aos sábados na Escola Municipal Murilo Celestino, que sede o espaço na realização do trabalho. Segundo Teresinha é um trabalho difícil de ser realizado e por causa dele já passou por diversas situações difíceis: “Não é fácil fazer isso, existem momentos em que nos perguntamos se estamos no caminho certo, já passamos por despejos e humilhação”.
Já a dificuldade enfrentada pela Casa da Amizade é na saúde das crianças, pois elas enquanto se mantém na creche recebem todos os cuidados necessários para a manutenção de uma vida saudável já quando elas estão em casa passam a correr riscos. “Ontem puxaram uma verme de uma criança aqui, pela falta de cuidado que elas recebem em casa”, disse a Irmã.
Voluntariado
A base do trabalho realizado por essas três instituições é feito por voluntários em sua maioria. Naiara dos Santos, 21 anos, voluntária há 5 anos da Creche Escola, conta que sempre estão ajudando quem os procura: “Mesmo quando tem férias aqui eles continuam a vim para pegar cesta básica e fazer refeições”. Para ser voluntário na Creche Escola é preciso preencher uma ficha, passar por uma entrevista e por um tipo de treinamento. Já a Casa da Amizade aceita apenas os voluntários conhecidos da comunidade. “Normalmente pego voluntários que são pessoas que conheço, não pego desconhecido, são pessoas fixas por causa da segurança”, declarou Lies.
Teresinha conta com ajuda de 20 voluntários, 8 deles dando aula, e 12 nas demais atividades, incluindo os pais que também colaboram. Na Cada da Amizade existem 2 funcionários remunerados e 6 voluntários, o projeto Abayneh conta com a ajuda de 8 pessoas, incluindo professores e pais de alunos do projeto, estando aberto a mais voluntários para que o trabalho seja ampliado.
A manutenção das creches e do projeto é feito através de doações, a Casa da Amizade recebe ajuda da Bélgica, do Prato Amigo, projeto do governo que leva alimentos uma vez por semana, e é também um dos que ajudam a Creche Rumo a Educação. Além do prato amigo a creche recebe doações de pequenas empresas e do exército que contribui com pedaços de carnes que eles não utilizam nas refeições. No projeto Abayneh as doações são realizadas pelos próprios voluntários e por algumas pessoas do bairro. “A renda é retirada de cada voluntário e da solidariedade de algumas pessoas da comunidade, por isso a necessidade de registrar o projeto como forma de captar recursos para dar continuidade ao mesmo”, afirma Cristina.
Benefícios
Graças a essas duas creches, muitos pais têm aonde deixar seus filhos, enquanto saem para trabalhar. Beatriz Santos Araújo, 10 anos, juntamente com seu irmão Alexssandro, 6 anos, freqüentam a creche Rumo a Educação desde muito pequenos. “Se não tivesse a creche ia ficar em casa sozinha, porque minha mãe trabalha”, disse Beatriz. Devido ao projeto Abayneh, crianças têm a oportunidade de pelo menos uma vez na semana receber educação infantil, juntamente com aulas de expressão corporal, através da dança afro e dos movimentos do break, ensinados pela voluntária Simone Gonçalves, 23 anos, estudante de dança da UFBA. “Eu trabalho com a auto-estima das crianças, procurando resgatar a identidade cultural e fazendo elas perceberem que elas fazem parte da sua própria história”, declara Simone.
Devido ao trabalho dessas três mulheres, que se sensibilizaram com as dificuldades enfrentadas pelas famílias de baixa renda da comunidade. É que atualmente muitas crianças dessas famílias podem levar uma vida melhor e ter uma perspectiva de um futuro diferente do enfrentado por seus pais, tendo como base uma alimentação digna e a educação.
CONTATOS:
Creche Escola Rumo a Educação
Tel: 3385-7581
Projeto Abayneh
Tel: 3384-4408
(junho de 2005)
Arquivado em: CIDADE