por Ricardo Palmeira
Quem passar, especialmente às sextas-feiras, em frente a um pequeno bar próximo ao Conjunto Doron, Cabula, certamente verá um clima de muita descontração com muitas pessoas bebendo e jogando dominó. Este é o conhecido boteco de uma senhora muito querida na região. Seu nome: Maria Carvalho. Seu sorriso fácil, sua tranqüilidade e seu caráter atraem toda a gente da localidade para seu estabelecimento simples, mas muito agradável. Quem a vê logo percebe seu carisma, porém provavelmente não saberá das dificuldades e superações pelas quais ela passou.Dona Maria, como é conhecida no bairro, tem dois filhos frutos de seu único casamento, dissolvido há vários anos. Chamam-se André, 27 anos, e Gabriel, 24. Formam uma família harmoniosa e unida, conduzida pela mãe, única provedora do lar. A separação conjugal prematura e tensa a tornou ainda mais responsável por seus filhos, na época, crianças, que deste aquele momento passaram a considerar Maria como pai e mãe ao mesmo tempo.
Há 11 anos, Maria Carvalho saiu de Capim Grosso – BA, cidade natal da família, e veio para a capital, querendo iniciar uma nova etapa da vida. Seu ex-marido, com quem não fala há anos, nunca foi presente nem ajudou na criação dos filhos. Ela sempre procurou minimizar esta ausência. Foi ela quem deu todo o amparo preciso para a boa criação dos rapazes. Desde sua chegada, montou uma modesta mercearia no Doron, local que mora desde então. Logo esta mercearia se transformaria num boteco, um dos mais conhecidos da localidade, que a cada dia aumenta sua popularidade.
O sustento da família vem somente do bar. Para manter o nível bom de vida, dona Maria é capaz de grande esforço e sacrifício. Abdicou de muitas coisas materiais, inclusive uma moradia melhor, para fornecer aos filhos tudo aquilo que achava fundamental nas suas formações. Ela sempre foi econômica na medida certa para conseguir o que deseja. Se necessário, guarda centavo por centavo para uma finalidade maior. Seus jeito e visual humildes transparecem esta idéia e revelam a imagem de uma mulher forte e de bem consigo mesma.
Dona Maria faz questão de demonstrar o amor que sente por seus filhos. Diz que “filhos são dádivas de Deus. Pelos meus, faço tudo. Os amo profundamente e sei que eles tem o mesmo sentimento por mim”. Com o dinheiro que economizou e com sua determinação, deu a melhor educação possível aos dois. Matriculou-os no Colégio Anchieta, um dos melhores e mais caros de Salvador, e os viu se tornarem homens capazes de conduzir bem suas próprias vidas. Hoje, ambos estão formados: o mais velho em direito pela Universidade Salvador (UNIFACS) e o mais novo, recém-formado em medicina pela Escola Baiana de Medicina. Universidades pagas com muita luta por Maria, que hoje fala de André e Gabriel com muito orgulho.
Todo o amor e esforço de Dona Maria destinados aos filhos têm reciprocidade. Eles a definem como “uma ‘mãezona’. Generosa quando acha justo, severa quando necessário e sempre cuidadosa”. O empenho imensurável que demonstrou na criação dos rapazes a tornou uma grande referência em suas vidas. Ambos adoram ajudar a mãe no trabalho diário no bar. Sempre que possível, são vistos trabalhando no pequeno estabelecimento da família, seja para diminuir o cansaço da mãe, seja para lhe fazer companhia.
Apesar dos problemas que tem, Maria Carvalho está sempre com um sorriso no rosto para distribuir aos amigos e conhecidos as vizinhança. Durante a semana, ela fica de sete da manhã a meia-noite disponível em seu bar, que vende muito mais coisas alem de bebida, resquício dos tempos em que era uma mercearia. A maioria das pessoas que passam por lá fazem simpáticas saudações a ela. Podem ser através de um simples “Olá, dona Maria” até um forte abraço que sempre são retribuídos da mesma forma. Nos fins de semana, adora ir ao cinema ou ao teatro, lazeres que não são muito freqüentes devido ao trabalho árduo que realiza em seu bar, incluindo sábados e domingos.
A mãe de André e Gabriel ama uma conversa. Ela é vista em seu boteco frequentemente “em grandes bate-papos com seus amigos do Doron”, como costuma dizer. Quase todos que moram nesta localidade a procuram para dialogar ou pedir conselhos. Sua voz mansa e conversa agradável conquista a todos que dela se aproxima. Maria também adora falar acerca de sua vida. Quem chega ao seu bar tem sempre historias para ouvir, se divertir e debater o dia inteiro.
Graças à dona, o boteco de Dona Maria possui um ambiente formidável para a conversa e diversão. Ela trata muito bem os freqüentadores do local e por eles é tão bem tratada. Contudo, se preciso, sabe impor respeito com sua fala suave, porém firme. Lá, sempre há alguém disposto a tomar uma cerveja e passar o tempo em boa companhia, nem que seja com a própria dona. A sexta-feira é conhecida como o dia oficial do dominó no bar. Neste dia à noite, momento mais movimentado, pessoas vindas de seus trabalhos e aposentados disputam partidas do referido jogo, em duelos que geram rivalidades bastante saudáveis. Aos sábados e domingos, o clima festivo prevalece desde o momento em que Maria abre seu estabelecimento até as ultimas horas do dia.
Todas as pessoas que conhecem Maria Carvalho a respeitam e a admiram, pela sua personalidade e história de vida. Independente da situação, ela está sempre de bom humor e tem alguma lição para passar. Dona Maria tem a cara do povo: mulata, nordestina, guerreira. Uma baixinha de aproximadamente 1,60m, mas que possui uma imensa personalidade e grandeza interior que pode servir de exemplo para todos.
(junho de 2006)
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