Paraíso da comida baiana

Posted on 30/07/2007

2


por Vanessa Ive Pimenta

Para quem não conhece o Paraíso Tropical, o restaurante que funciona há nove anos, passa despercebido em uma casa simples e rústica na segunda travessa à esquerda do Resgate, no bairro do Cabula. Porém, a sofisticação se revela no cardápio com a troca de produtos industrializados por elementos naturais e protéicos, extraídos do pomar do restaurante. Além de a sobremesa ser uma cortesia da casa: uma bandeja com diversas frutas, sendo que, caso o cliente não agüente desfrutá-las, pode levar a sobra em uma sacolinha. São essas particularidades que tornam o restaurante um ícone da culinária baiana, atraindo baianos, turistas e famosos como: Daniela Mercury, Caetano Veloso, Regina Casé, Cássia Eller, Ana Carolina, Luana Piovani, Adriane Galisteu e outros. O dono do restaurante é o agrônomo Beto Pimentel que, no intuito de tornar as receitas diferentes e exóticas, aproveitou a variedade de frutas da chácara e o seu dom da arte de cozinhar, herdado da sua avó dona Zizinha e inventou os seus próprios pratos. E é aí que mora o segredo do Restaurante Paraíso Tropical: Beto acrescentou aos pratos tradicionais ingredientes naturais e temperos aromáticos, especiais, como a polpa da pitanga, lâminas de coco verde, azeite de oliva extra virgem, semente de urucum, vinagreira, capim santo e biribiri. Este último até abaixa o colesterol e combate pedra nos rins. O suco também é feito de uma forma especial, é extraído da polpa natural da fruta com baixa concentração de água, tendo assim, aspecto de um sorvete.

Segundo o chef Beto, a comida baiana é saborosíssima, porém gordurosa, então para eliminar essa gordura das suas receitas, o leite de coco é trocado pela água de coco batida com coco verde, e o dendê, pelo fruto do dendê. “Por ignorância ou por falta de encontrar a matéria-prima ideal, o pessoal usa muito o azeite de dendê que já vem de fábrica saturado e o leite de coco que, além de ser gorduroso, depois de certa temperatura, passa a ser óleo de coco”, explicou o agrônomo. Para evitar que os turistas do Sul do Brasil estranhem o sabor e odor do coentro, o restaurante o substitui pela folha da tangerina, da laranja-da-terra ou do limão.

O Paraíso Tropical tem um ambiente agradável e tranqüilo, com mesas e cadeiras de plástico, sem luxo nos talheres e louças. Beto frisa que o artista plástico Carybé, quando visitou o local, o aconselhou a manter um clima agreste, natural e rude, e não modernizá-lo. O restaurante é rodeado de uma natureza admirável: árvores, frutas e pássaros que expressam um verdadeiro paraíso. Além de está sempre tocando uma música popular brasileira, deixando os clientes à vontade e relaxados. Há também como fundo musical o coro dos galos de briga, que faziam parte da antiga rinha de Beto.

Clientela
Os clientes até se divertem com o coro, como o funcionário de uma empresa de reciclagem, Marcelo Campos, 35 anos, que visitou pela primeira vez o local e brincou com a cantoria: “O lugar é ótimo, a comida é excelente, o único problema são os galos que não param de cantar. Tem horas que se reúnem e cantam ao mesmo tempo”. E continua falando em um clima esportivo: “O que mais me atrai é que parece que você está almoçando numa selva, só falta aparecer Tarzan e Jane”.

“Marinheiros de primeira viagem”, o engenheiro Jorge da Silva e a sua esposa Andréa Carvalho foram visitar o local por recomendação de amigos. “Alguns amigos falam bastante daqui, dizem que a comida vem acompanhada de frutas e que os pratos são caseiros e diferentes”, declarou o engenheiro. “Nos informaram que é regra da casa os clientes saírem com sacolas carregadas de frutas, ficamos curiosos e estamos aqui para experimentar”, continuou Andréa.

Pelos seus diferenciais na culinária, é comum encontrar no restaurante turistas de diversos lugares. Como o casal Ken e Kevin, naturais de Los Angeles, que vieram para conhecer a cultura afro-brasileira e, claro, não poderiam deixar de experimentar a típica comida baiana. O guia turístico do casal e amigo íntimo de Beto, Luís Augusto, fala que o restaurante é parada obrigatória para os seus clientes. E ainda reforça as qualidades do local: “Aqui é totalmente diferenciado dos outros restaurantes, os outros são bons, mas o tempero daqui é diferente, tem mais proteínas”.

Os pratos do restaurante Paraíso Tropical não só encantam pessoas leigas em culinária, mas também especialistas. Como a chef de cozinha Débora Soares, que veio do Paraná e que, até chegar ao restaurante, não tinha experimentado nenhuma comida baiana. Depois de comer um dos melhores pratos do local, o Dandá de Camarão, Débora confessou: “Nunca tinha comido nada igual, é muito gostoso. Estou impressionada, inclusive vou pedir ao Beto um estágio durante essa temporada aqui”.

Outro diferencial que marca o restaurante é o atendimento. Os garçons são atenciosos e prestativos e estão sempre dispostos a explicar à clientela a história do restaurante e falar das receitas das comidas. O garçom Eliseu Reis, 26 anos, afirma que: “Cada dia que passa me aperfeiçoou mais”. O chef Beto costuma passar em cada mesa, contagiando os clientes com a sua simpatia, doçura e espontaneidade e mostrando revistas com reportagens sobre o Paraíso Tropical e um álbum de fotos dos artistas que por lá passaram. Assim, através do seu sorriso histórias humorísticas, ele conquista cada um que visita o local.

Apesar do sucesso que o Paraíso Tropical faz, muitos moradores do Resgate nunca ouviram falar sobre o restaurante, como a estudante Taiane França, 18 anos: “Paraíso Tropical? Nunca ouvi falar, tem certeza que é aqui no Resgate?”. Outros já ouviram falar e até freqüentaram uma ou duas vezes. A secretária Líbia Torres, declara que já freqüentou duas vezes o restaurante, mas só não retornou por falta de condições financeiras: “A comida é boa e o atendimento é maravilhoso, se eu tivesse condições eu ia lá sempre”.

Toda essa inovação que proporciona uma comida baiana mais leve e saborosa tornou o Restaurante conhecido e valorizado, conquistando vários prêmios, entre eles, cinco troféus consecutivos do Guia Quatro Rodas e o prêmio da maior referência gastronômica do mundo, com a delegação italiana “Commandeire Dês Cordons Bleus De France”. Segundo Beto, estes prêmios foram conquistados através dos pratos Dandá de Camarão que é composto de mariscos, aipim, palmito fresco e maturi, a castanha do caju verde, e o Cala Polvo, que contém lagosta, camarão, polvo, semente de urucum, pitanga, vinagreira e o azeite de oliva extra virgem.

Filial
Com o objetivo de diminuir a movimentação do restaurante e de sustentar os seus 23 filhos, Beto Pimentel abriu a primeira filial do Paraíso Tropical, no Rio Vermelho. Este segue outro prisma, um ambiente luxuoso, requintado, com mesas de mármores e paredes decoradas. Funcionária do restaurante há seis anos, Regina Jesus, 26, afirma que o movimento amenizou com a instalação do novo restaurante: “A clientela diminuiu, porque os clientes que moram lá para aqueles lados, vão para a filial no Rio Vermelho, não precisam se deslocar até aqui”.

Como começou
A paixão de Beto pelas frutas surgiu na infância, nas suas travessuras em que roubava as guloseimas dos quintais dos vizinhos. Agora, já adulto, tem o seu próprio pomar que contém quase seis mil árvores frutíferas, a maioria plantadas por ele. Beto conta que hoje são as crianças vizinhas que se divertem escondidas, lambuzadas com as frutas da sua chácara: “Hoje eu sou vítima, os meninos roubam o meu pomar à vontade, mas isso faz parte da infância”.

A idéia do restaurante nasceu com uma rinha de galo. Logo quando Beto comprou o sítio no Cabula, transformou-o em um lugar próprio para as brigas de galo. Como o negócio não prosperou, ele resolveu realizar um dos seus grandes sonhos: ter um restaurante. Mas a intenção não era abrir um restaurante comum, pois assim não iria atrair pessoas de outros bairros. “Na época, eu pensei: se eu for vender bife com batatas fritas, quem vai sair da Barra para comer bife com batatas fritas no Cabula? Provavelmente ninguém”.

No início do restaurante não havia a pretensão de atingir tanta fama. Beto fala que apenas queria oferecer bons pratos, de uma maneira calma e tranqüila. Hoje, o chef confessa que “já não tem muito tempo para ir para cozinha, porque o restaurante se tornou personalizado e bastante procurado”. Mas o esforço de Beto Pimentel valeu a pena, o Paraíso Tropical é hoje um ícone da culinária baiana e um dos ambientes mais típicos e pitorescos de Salvador.
(junho de 2005)

 

Anúncios
Posted in: CULTURA